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José Pinto *
Orlando Villas Bôas (ESTE É O Q VALE)
Ava aqua apé (O PAI GRANDE)
Ele está sentado à nossa frente. Estende para o alto o braço do coração e exclama:
PENE VAT - Lá é o céu!
VATE VAT - O céu dos céus!
A AUA - - Quem?
AQUARÁ PAP TETÉ - Ninguém, só uma sabedoria!
Na cabeça, a coragem, a missão. A entrega da vida ao Povo, a nação, à humanidade. Carrega na alma a paz, a união.
Brilha na face a força do indigenista. Sulcos na testa, ensinam as trilhas da floresta. No sangue quente, a mistura de raças; na boca, a comunidade da expressão.
Emocionado, lembro quando o conheci em circunstâncias muito especiais, às margens do Rio Xingu, em 1953. Estou girando em torno do feiticeiro, fotografando detalhes: na pele, o frescor, a visão, escuto o coração, o respiro da saudade. Me aproximo mais: estou utilizando acoplada à objetiva de 50mm uma antiquíssima Proxar. Identifico, vejo as marcas do tempo que passou: os poros estão cheios de aldeias; algumas em festas, outras em oração a NHANDURU TENONDE, O Deus Supremo.
Observo o crepitar de pequenas fogueiras jorrando calor, projetando no interior das malocas sombras de índias, curumins, índios, todos nus. Na pele morena, a passagem do sol, o picote da cobra, a malária vencida, o cheiro da mata, a flor escondida. Espírito e corpo, perenes viajantes nos rios. Vejo a luta do homem defendendo o direito à terra dos índios; enfrentando desafios.
Na cabeleira em cascata de fios cinza-prata, cintilantes, desagüam alvas cachoeiras ressonantes. O olhar sereno do sertanista revela a luz do humanista.
Aos oitenta e seis anos, o venerado Pacificador-pajé prega a liberdade, inspira outros bravos, ensina simplicidade, humildade. Levantou outra aldeia, agora luta na cidade. Bate forte o coração indígena-sertanejo; pulsa com Mãe-natureza; fazem festa, comemoram, batem palmas; choram juntos suas tristezas. Na barba macia ondulante vejo linhas d'água das lagoas, a lua cheia a dançar nas malocas Karajás...
Noel, o caçula do Pai Grande, sorri; Marina, o anjo da guarda do guerreiro se emociona e exclama: as mãos da fada artista, trabalham, proclamam!...o clone do humano. As mãos, a alma de Shirley Xavier da Silveira em transcendente, harmoniosa inspiração, eternizam no barro o mito, cumprem a sagrada missão.
Orlando continua sentado, imóvel, tem a coluna em arco, ligeiramente curvada pelo tempo. O arsenal de flechas está intacto: A SABEDORIA.
OH! MEU PAI!
OH! MEU PAI!
OH! MEU PAI!
Lá vai ELE, o santificado Gorijuba! Em mergulhos, vai abençoando as águas dos igarapés; o olhar doce, flutuante, do Guerreiro da Paz reflete duas pérolas negras (minúsculos UBAS) viajantes. Dentro dele, cabe toda a Amazônia.
O filho da floresta voltou! Levado pela voz melodiosa do vento, e perfume das árvores, segue o invisível rastro de uma onça preta. É guiado por borboletas azuis e brancas, alegres e sorridentes, batem asas alegremente como aplausos da natureza.
MEGARON, o ESPÍRITO DA FLORESTA, munnum segredos com Oriando Villas Bôas. O feiticeiro se entrega. fecha os olhos.
Adormece... SÓ ELE CONTA O TEMPO QUE PASSOU, A ETERNIDADE QUE VIVEU, O QUE VIU, O QUE SENTIU!...
Conheço poucos homens parecidos com uma árvore: ORLANDO VILLAS BÔAS é um deles! Entre as mulheres encontrei mais, muito mais!
José Pinto
SP - 03/05/2002
A FORÇA DE DEUS
Venha! Aproxime-se! Chegue mais perto!
Você pode se sentir envolvido pela corrente de energia que flui dos rios, das árvores, das flores, dos bichos, das aves, das sementes, da terra!
Venha! Aproxime-se! Chegue mais perto!
Você vai ver o que está por dentro deste rosto amazônico, bem nosso, bem brasileiro!
Venha! Aproxime-se! Chegue mais perto!
Você vai sentir a força que irradia e mantém de pé Megaron, índio Karipuna: a força da fé, da mata, de Deus!!!
Venha! Aproxime-se! Chegue mais perto ainda!
Ou mesmo de longe - onde você estiver - por um momento que seja você vai entregar seu coração à Amazônia, ao povo da floresta, aos sem-nada, àqueles que sabem honrar, como Orlando Villas Bôas, a vida doada pelo Pai!
José Pinto
NOVO HOMEM
Osso, dorso, frente, gente, animal, rio,
Fio que religa o presente ao passado distante,
A todo momento, no presente inconstante.
O que foi? O que será? O que é?
Pensamentos longínquos, olhar penetrante,
Vínculos sagrados com a era de Peixes.
Expurgos internos de uma humanidade
Doente, ausente, carente de Deus?
A mesma cruz que lembra a morte, desperta a vida, para o renascimento de um novo homem, alado, porque é livre das amarras da ilusão criada durante séculos; poderoso e forte, porque tem o domínio sobre sua mente e está alinhado com a natureza; sábio, porque percebe que ele é o todo, ascensionado, porque é tão puro quanto a água que brota do meio da selva.
Shirley Xavier da Silveira
Escultora, Arteterapeuta
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TRÊS SEMENTES
Senti no ar - na casa do querido sertanista - o perfume da onda energética que circulava suavemente entre livros, pinturas e esculturas indígenas: arcos, flechas, cocares e provavelmente outros elementos dispostos somente ao alcance do homem-mito, patrimônio da humanidade: o sertanista Orlando Villas Bôas.
Do jardim ao lado chegava o canto sincronizado de bem-te-vis e pardais que Marina, a esposa, cultiva em liberdade total.
Fiquei observando, enquanto ele folheava as páginas do boneco do livro que criei. Sua expressão facial alternava todas as vezes que o brilho de seus olhos de águia se alternava entre alegre e triste - jamais de espanto
O rosto moreno, curtido pelos 60 anos de luz tropical, era pura emoção. Seu corpo inteiro parecia deslocado, viajando, remetido bem distante... talvez atraído pela magia de um pajé-gavião... quem sabe até já estivesse ouvindo bem de perto o chamado vindo de mais, longe ainda, e que começava a refletir timidamente em meu pensamento, em sintonia com o cadenciado ritmo de flautas e maracas. Nas trilhas, nos igarapés, nas malocas está ecoando um canto de amor dos seus filhos da floresta, festejando a volta de APA-ARUIAP (o Pai Grande).
Em cada virada de página, o sertanista parecia curtir as saudades dos rios, - continua...cachoeiras, peixes, trilhas, árvores, flores, aves, animais - saudades da terra, do céu, da chuva, do vento...
Fechou o esboço do livro, abriu um leve sorriso - o brilho dos olhos continuava se alternando -, levantou a cabeça me olhando, e disse: "Zé, gostei!".
Senti-me feliz, as imagens deste livro tinham sido analisadas e aprovadas por este homem que, aos 85 anos, continua a conviver em plena harmonia com o corpo, a alma e os espíritos da floresta,com tudo o que ainda existe - e que temos o dever de preservar - na Amazônia Brasileira.
Era uma vez três sementes: mirapinima, mogno e maçaranduba, que o Grande Pai plantou entre nós como exemplo de fé, coragem, heroísmo e entrega total aos nossos irmãos índios e caboclos. Era uma vez os irmãos Villas Bôas: Cláudio, Orlando e Leonardo - as três sementes divinas - com os quais tive a felicidade de conviver algum tempo.
(JE)29/5/2002/15h18
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* José Pinto é fotógrafo e trabalhou na revista O Cruzeiro e no jornal O Estado de S. Paulo. É co-autor do livro Amazônia Homem.
Legendas
1. Orlando ao lado de reprodução da capa do livro Amazônia Homem. Foto: José Pinto
2. Orlando com a escultora e arteterapeuta Shirley Xavier da Silveira. Foto: José Pinto
3. Busto de Orlando esculpido por Shirley Xavier da Silveira. Foto: José Pinto.
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