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Dr. Roberto Baruzzi *

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Em 1965, a partir de um convite de Orlando e Cláudio Villas Bôas, abria-se uma nova área de atuação para a Escola Paulista de Medicina (EPM), atual Universidade Federal de São Paulo. Era o Parque Indígena do Xingu, criado em 1961, no governo de Jânio Quadros, com a denominação de Parque Nacional do Xingu, habitado por tribos pertencentes aos quatro maiores troncos ou famílias lingüísticas do País: Aruwak, Karib, Gê e Tupi, além dos Trumai de língua isolada.
Em atenção ao convite formulado, um grupo de médicos da EPM foi a Parque Indígena do Xingu para avaliar as condições de saúde da população. Como resultado ficou evidente a necessidade de ser implantado um programa de saúde que tivesse continuidade e incluísse ações preventivas e curativas.
Neste sentido foi firmado um acordo entre a Escola Paulista de Medicina e o Parque Indígena do Xingu, no qual a EPM se comprometia a colaborar na assistência à saúde da população e o Parque, por sua vez, a alojar equipes médicas e assegurar o transporte interno para as aldeias. O acordo foi assinado pelo Prof. Walter Leser, chefe do Departamento de Medicina da EPM, e Orlando Villas Bôas, diretor do Parque.
A EPM passou a enviar equipes médicas periódicas e na ocorrência de epidemias, que prestavam atendimento médico e procediam à vacinação dos suscetíveis, adultos e crianças. As equipes tiveram sempre um caráter multidisciplinar, com a presença de médicos, dentistas e enfermeiras, incluindo também alunos, que viriam a assegurar a continuidade do programa nos anos vindouros. O Hospital São Paulo (EPM) proporcionava a retaguarda hospitalar, sendo o transporte aéreo dos pacientes e das equipes de saúde feito pela FAB, facilitado pela existência de um vôo semanal ligando São Paulo ao Parque. A EPM se comprometeu, inclusive, a implantar um sistema de cadastramento médico da população através de uma ficha médica que, ao lado de dados de identificação por indivíduo, família e etnia, permitia o registro do exame físico inicial, das vacinas aplicadas e das ocorrências clínicas posteriores.
O programa de saúde, desde o seu início, teve como princípio básico o respeito à medicina tradicional dos índios, estabelecendo um clima cordial de relacionamento com os pajés. A EPM foi muito bem recebida pelos índios do Xingu, que tinham triste memória de uma epidemia de sarampo que, em 1954, acometeu uma população de 600 índios do Alto Xingu, na parte sul do Parque, causando 114 mortes. Cláudio e Orlando, por sua vez, haviam esclarecido os índios sobre o trabalho que a EPM iria desenvolver, salientando a importância das vacinas para evitar situações como a que ocorrera naquele ano.
Com o surgimento da FUNAI, em 1967, o acordo que fora firmado com o Parque assume o caráter mais formal de um convênio FUNAI-EPM, mantendo em linhas gerais os mesmos propósitos e compromissos. A EPM em várias ocasiões estendeu suas ações de saúde a outras áreas indígenas do país, inclusive do Estado de São Paulo, mas o Parque, ao longo dos anos, permaneceu como sua principal área a atuação.
O Posto Indígena Leonardo Villas Bôas, no Alto Xingu, era o centro administrativo, onde ficava o Orlando. Mais ao norte, no Posto Diauarum, estava o Cláudio. Até tarde da noite ficávamos ouvindo os “causos” do Orlando, em narrativas pitorescas, que muito nos atraíam, e que se reportavam aos tempos da Expedição Roncador-Xingu ao seu convívio com a gente simples do sertão. No Diauarum, o Cláudio, recostado em sua rede, mantinha longas conversas com os índios, falando de seus direitos e alertando-os para situações difíceis que poderiam vir a enfrentar com o maior contanto com o mundo do branco. As memórias daqueles tempos estão presentes nos livros que o Orlando e o Cláudio viriam a publicar em anos mais recentes.
Em meados da década de 1970, Cláudio e Orlando, após 30 anos de trabalho no Brasil Central, de apoio a comunidades indígenas, deixaram a direção do Parque, sendo substituídos por Olímpio Serra, antropólogo. Nos anos seguintes, o Parque teve vários administradores indicados pela FUNAI, para finalmente, em 1984, a sua direção ser assumida por Megaron, índio Txuacarramãe, eleito pelas lideranças xinguanas. O Megaron fez parte do grupo de “sectários”, adolescentes preparados pelos irmãos Villas Bôas para virem a assumir cargos de direção no Parque. Após o Megaron, foi escolhido, também por eleição, o Ianaculá, da etnia Yawalapiti, sucedido por Piracumâ, da mesma etnia. O atual diretor do Parque é Paiê, da etnia Kayabi.
No final da década de 1980, assiste-se à diminuição progressiva do pessoal de saúde da FUNAI no Parque, vendo-se a EPM na contingÊncia de ampliar sua participação sob o risco de queda das condições de saúde da população. Nessas circunstâncias foi muito importante o apoio da Fundação Kellogg e da Rainforest Foundation ao programa de saúde. Foi dada, então, grande prioridade à formação e capacitação de Agentes de Saúde Indígenas, indicados por suas comunidades. A seguir, numa etapa mais avançada, foi criado o curso de Auxiliar de Enfermagem Indígena, sendo a primeira turma diplomada em cerimônia realizada na UNIFESP/EPM, em junho de 2001, com a presença do Reitor, Dr. Hélio Egydio Nogueira, e de Orlando Villas Bôas.
Em 1999, a responsabilidade pela atenção à saúde dos índios de todo o país passou para a FUNASA (Fundação Nacional de Saúde, Ministério da Saúde). Foram, então, criados 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DISEI) a partir de critérios étnicos e geográficos e estabelecidos convênios com entidades e instituições que atuavam na área: organizações não-governamentais, associações indígenas, dioceses e prefeituras. Coube à UNIFESP/EPM a direção e coordenação do DISEI-Xingu, com exceção dos Txukarramãe, Tapayuna e Panará, que passaram a pertencer ao DISEI-Caiapó, com sede em Colider.
Como coordenador do DISEI-Xingu (MT) foi designado o Dr. Douglas Rodrigues, que desde o primeiro ano da residência médica na EPM, há 22 anos, participa do programa de saúde.
Nos dias atuais o Parque, considerado como um todo, é uma ilha verde cercada de extensas áreas desmatadas, várias cidades surgiram em seu entorno. O Parque continua a salvo da ação de garimpos e madeireiras, a fauna e a flora preservadas. A sua população passou de cerca de 1500 indivíduos, em 1965, para quase 5000 em 2001. Acolheu tribos ameaçadas pela invasão de suas terras: os Txikão ou Ikpeng, procedentes do Rio Batovi, em 1967; os Tapayunas do Rio Teles Pires, em 1970; os Kreen-Akarore ou Panará, do rio Peixoto de Azevedo, em 1975. um primeiro grupo dos Kayabis, do Rio Teles Pires, ingressou na área que viria a formar o Parque em 1952, num movimento migratório por etapas que iria se estender até 1973.
Os índios do Parque estão cientes de seus direitos, organizam-se em associações e participam ativamente de encontros e eventos no país e no exterior em defesa dos direitos dos povos indígenas do país. Pode-se afirmar que foram plenamente alcançados os propósitos que levaram à criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, num movimento que contou com a participação de Orlando e Cláudio Villas Bôas, Darcy Ribeiro, Gama Malcher, Noel Nutels, Jorge Ferreira e outras personalidades voltadas para a defesa das terras e dos direitos dos índios.
Esses propósitos estão expressos nos dizeres de Orlando: o Governo Brasileiro ao criar o Parque Nacional do Xingu teve em mira dois importantes objetivos: construir uma reserva natural onde a fauna e a flora intocadas guardassem, para o Brasil do futuro, um testemunho do Brasil do Descobrimento, sobretudo para fazer chegar diretamente às tribos indígenas a sua ação protetora, prestando-lhes assistência e defendo-as de contatos prematuros e nocivos com as frentes de ocupação da sociedade nacional.
Ao longo dos anos houve estreito contato do Orlando e do Cláudio, este infelizmente já falecido, com a UNIFESP/EPM. Assim, tornou-se tradicional a “aula inaugural” do Orlando na semana de recepção aos calouros dos diferentes cursos da UNIFESP/EPM.
De minha parte tenho a dizer que um feliz acaso me levou ao encontro dos irmãos Villas Bôas, do qual se originou o convite para que a Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de São Paulo, colaborasse na assistência à saúde dos índios do Parque. Sou grato ao Orlando, à memória do Cláudio, a todos os que participaram e participam desse programa e aos índios do Xingu pela rica experiência humanística e muitas amizades que essa atividade me proporcionou ao longo dos anos.
*Prof. Dr. Roberto Baruzzi, Professor Titular Aposentado do Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP/EPM. Graduado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, em 1957. Mestre em Saúde Pública pelo Instituto Príncipe Leopoldo na Bélgica, em 1967. Doutor em Medicina Preventiva pela Escola Paulista de Medicina, em 1968. Coordenador do Programa de Saúde da UNIFESP/EPM no Parque Indígena do Xingu (1965-1996). Consultor Científico a partir de 1996.
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1. Do lado esquerdo está do Dr. Douglas Rodrigues, atual coordenador do
Programa de Saúde que a UNIFESP/EPM desenvolve no Parque Indígena do
Xingu. Do lado direito está do Dr. Roberto Baruzzi, que foi responsável
pelo programa de 1965 até 1996. A foto foi tirada em 2001 na Escola
Paulista de Medicina (EPM). Foto: Arquivo Orlando Villas Bôas
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