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Sexta-feira, 2 de julho de 2004

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 Ignácio de L. Brandão - Caderno 2 [02/07/2004]  
caderno2@estado.com.br

Cláudia Abreu, luz que nos acompanhará

Comentou-se que Gilberto Braga involuiu porque em lugar de premiar os vilões, como fez em novelas anteriores, castigou-os segundo a moral tradicional. Os maus punidos e os bons recompensados. Ele durante anos seguiu o clássico de Akira Kurosawa em Homem Mau Dorme Bem. Agora, mudou e parece-me que a maioria não entendeu. Sempre se costuma dizer, quando se percebe que a trama está "exagerada", que a vida real é uma coisa e novela é outra. Braga deu o nó nas cabeças ao confirmar que a tese é verdadeira. Ele quis dizer simplesmente que Celebridade é apenas novela, nada mais do que novela. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Porque, aqui é que vem o sarcasmo, na vida real tudo acontece diferente...

Sabemos que na vida real os Lalaus têm os crimes prescritos, dos donos da Encol não se sabe o que foi feito, o Maluf garante que não tem conta na Suíça, não escreveu a carta, falsificaram a sua assinatura, Luís Estevão continua por aí lampeiro, o Sérgio Naya ainda não pagou um tostão às vitimas de seus descalabros, açudes romperam no Nordeste, mataram pessoas e os responsáveis ninguém sabe quem são, o bando do Rio que lesava o fisco comandado pelo Silveirinha está em liberdade. A crônica poderia listar um catálogo telefônico mais do que conhecido e seria apenas repetitiva. Seria vida real, não dramaturgia. Na vida real, por exemplo, o presidente não sabe pontos de geografia do curso primário.

Portanto, novela continua sendo novela. Mundo que existe dentro dos estúdios, com vidas falsas, cenários de plástico, soluções inexistentes, personagens mirabolantes, fábulas. Ou serão metáforas? Quem disse que a televisão precisa espelhar a vida real? Ela está ali para nos fazer esquecer e assim, construindo um mundo de mentira em cima de uma situação verdadeira, nos faz crer que na vida teremos também um final feliz, os maus serão punidos, os demônios exorcizados. No entanto, será que os limites novela-vida real não se tornaram melífluos, inconsistentes e confusos?

Portanto, esta é a novela mais novela que já vimos, uma arte em que Gilberto Braga é senhor absoluto. Só que também tinha vida real. Celebridade foi um dos mais altos momentos desse gênero que todos assistimos (uns assumidamente, outros sigilosamente), discutimos, nos envolvemos, tomamos partido.

Na semana passada não havia uma só pessoa, uma só publicação que não estivesse fazendo apostas: quem matou Lineu? Todos foram suspeitos, menos Laura. Aqui se vê de novo que foi novela e não vida real. Laura matou por acaso. Não foi um ato deliberado, programado. Um tiro acidental. Pode-se dizer que Lineu morreu de bala perdida e aí seria vida real no Rio de Janeiro. Mas, na vida real, Lineu teria tido um assassinato planejado.

Laura, ah, Laura! Com Laura, personagem escrita à perfeição, o Brasil caiu aos pés de Cláudia Abreu. Completa, admirável, atriz que tem talento, tem recursos, voz, sabe onde colocar as mãos, conhece o tom exato de um diálogo, tem uma raiva interior que assoma aos olhos, transpira em cada poro. Sua interpretação é contida, tem ritmo, acelera, desacelera, ela sabe o momento exato de puxar o freio, transforma o ódio em doçura em dois segundos.

Cláudia Abreu como Laura deve ser lição nas escolas de arte dramática do Brasil, os capítulos precisam ser exibidos, comentados, analisados como se fossem manuais. A bela fera Cláudia Abreu nos lembrou os melhores momentos daquela que foi nas telas uma vilã sempre em estado de vulcão em erupção:

Bette Davis. A Bette que atingiu o cume com Baby Jane. Ou Anne Baxter em A Malvada. E se igualou a Faye Dunaway em Mamãezinha Querida. Ruim que se preza é ruim mesmo, não tem amenidades.

Não há concessões na personagem Laura: ela é má, porque as pessoas más são más, e ela tinha um objetivo deliberado, destruir. A mentira constante, exacerbada. Conhecemos um personagem semelhante na vida real. Laura era forte, poucas vezes uma personagem foi tão obstinada. Fraqueja, vacila e retoma o controle em seguida. Como imaginamos que os maus vencem ? Pela determinação, ausência de escrúpulos, de moral, de ética e pelo racionalismo. No final, ela se depara com o seu espelho, Renato Mendes, e percebe que o outro vai perder, porque mergulhou no irracional. E em seus olhos há o ódio pela fraqueza. O desespero de Renato Mendes era perigoso e ao mesmo tempo espantoso. Laura, por um segundo, hesita, enquanto raciocina de que maneira poderá tirar partido da situação. Laura-Renato. O duplo, o outro borgiano. Naquele instante, ambos penetravam em um labirinto. A verdade é que o mal nos fascina, atrai.

Cláudia Abreu manteve o tom de interpretação sempre alto, no timing preciso, valorizando os olhares, a explosão, a contenção. O riso que pode ser raivoso ou terno. Seu personagem foi construído interiormente e cresceu. É doce somente um momento: quando ela se deita junto ao peito do michê para morrer.

Único instante de humanidade que ela transmite e emociona. Se existisse um pódium na televisão brasileira, Cláudia estaria agora no alto, em primeiro lugar, como a melhor atriz da telinha.

Mulher rara, atriz excepcional, beleza deslumbrante, sensualidade exasperante. Nós, telespectadores que nos apaixonamos por ela, quisemos que Celebridade se eternizasse, porque cada fotograma de Cláudia nos galvanizava, agradecíamos ao inventor da televisão por ter criado tal meio que possibilitou tal arte. Momento de grandeza dessa arte chamada novela, gênero literário, sim senhor. Momento de fulgor dessa arte chamada interpretação que redime a tevê de todos os arrivistas, masculinos ou femininos, que chegam com belos rostos, belos torsos, belos físicos, presenças agradáveis até o momento que começam a representar, porque nunca começam. Gilberto Braga sabe o que faz e permite, inclusive, alfinetadas que definem a atuação dos arrivistas despreparados: papéis de mudos. Acrescento, papéis de estátuas, imobilizados em cena. Sim, Celebridade terminou, mas durante muito tempo vai brilhar ainda essa luz de Laura/Cláudia Abreu, porque ela será como a luz de estrelas mortas que, quando chegam a nós, atravessaram milhões de anos no espaço.

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