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Quarta-feira, 25 de maio de 2005 - 18h02

Sem dentista e sem dinheiro, camelô recorre ao candomblé

Salvador - Aos 27 anos, o ambulante Amaro da Conceição dos Santos nunca foi ao dentista. Alega não ter tempo para "correr atrás" de uma senha para atendimento num dos serviços gratuitos bucais oferecidos na cidade (como o posto da prefeitura de Salvador ou o serviço mantido pelos alunos da Faculdade Odontologia da Universidade Federal da Bahia) e tampouco dispõem de dinheiro para pagar um dentista. "Meu tempo eu gasto batalhando o leite das crianças", diz, contando ter dois filhos e mulher para sustentar.

Ele é um dos milhares de ambulantes da capital baiana sem a chamada "guia" da prefeitura, documento que autoriza vender quinquilharias no centro de Salvador e torna o camelô "imune" ao temido "rapa" como é conhecida o setor de fiscalização do comércio informal da prefeitura.

Como corre o risco de ter sua mercadoria aprendida pelo "rapa", Santos precisa circular, vendendo de caquis a guarda-chuvas, sem "pouso certo". Ele diz faturar entre R$ 300 e 400 por mês. "Desse dinheiro 50 paus é para pagar o aluguel do barraco e o resto para comprar comida", diz.

Tamareiras

O ambulante ainda não perdeu nenhum dente, mas admite ter algumas cáries. Quando o dente dói, prefere recorrer à "medicina alternativa", comprando folhas sagradas do candomblé nas inúmeras barraquinhas que vendem ervas do culto afro nas feiras de Salvador. "Uma das que uso para a dor é a folha da tamareira", afirma.

Curiosamente, a folha de tamareira entra numa receita iorubá para dor de dentes, recolhida nas pesquisas do antropólogo Pierre Verger e publicada no livro "Ewe - O uso das plantas na sociedade iorubá". Essa nação africana (que teve milhares de membros trazidos para a Bahia como escravos) sempre foi pródiga em criar fórmulas para todo tipo de problemas e a dor de dente é um deles. Segundo a receita, deve-se moer a tamareira, outras três folhas e mais salitre. Depois é só limpar os dentes com a mistura.

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