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Quarta-feira, 25 de maio de 2005 - 17h59

28 milhões de brasileiros nunca foram ao dentista

Arte/Estado
Rio de Janeiro - O consultório odontológico ainda é um lugar desconhecido para 27,9 milhões de brasileiros. Segundo pesquisa do IBGE, 15,9% da população nunca foi ao dentista. Em 1998, o quadro era ainda pior: 18,7% nunca tinham sentado numa cadeira de dentista.

A redução foi maior entre os mais pobres, mas os números retratam uma parcela significativa da população ainda excluída de um dos serviços básicos de saúde. Na faixa de renda familiar de um salário mínimo, a proporção dos que jamais viram um dentista chega a 31%. Nas famílias com renda acima de 20 salários mínimos, esse número é de apenas 2,9%. O problema é mais agudo no campo, onde 28% nunca fez uma consulta odontológica, do que nas áreas urbanas, cuja proporção é de 13,6%.

Descaso

Os números não surpreendem o presidente da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), Norberto Lubiana. "Historicamente sempre houve um descaso muito grande em relação à saúde bucal do brasileiro. Falta acesso ao consultório e à informação", afirmou. "Estamos cobrando dos governos a ampliação dos programas e mais verbas. Temos 11% dos dentistas do planeta, uma odontologia de alta qualidade tecnológica e um quadro epidemiológico vergonhoso".

Segundo ele, a conseqüência disso é o desenvolvimento de cáries e inflamações que podem levar a seqüelas graves que vão da perda dos dentes até infecções que podem atingir outros órgãos, sem desconsiderar os prejuízos estéticos e psicológicos. O problema é mais grave na faixa etária que é o principal alvo das políticas de prevenção. No grupo de crianças e jovens entre 5 e 19 anos, 22,1% nunca foram ao dentista.

Ligeira melhora

Para o presidente da ABO, ainda falta um sistema efetivo de prevenção e o investimento na contratação de dentistas e na compra de equipamentos para o serviço público. No entanto, ele concorda que a ligeira melhora dos indicadores em relação à última pesquisa revela que os programas criados nos últimos anos estão dando resultado. "Se houver prioridade, a tendência é melhorar. Na faixa de 5 anos, já temos hoje uma incidência muito baixa de cáries", disse.

Os estados do Maranhão e da Bahia apresentaram a maior proporção da população sem acesso ao dentista: 32,34% e 29,57%, respectivamente. O melhor resultado foi o de Santa Catarina, onde apenas 9,51% nunca foi ao dentista, seguido por Distrito Federal (9,61), Paraná (10,07%) e São Paulo (10,36%).

Médicos

Outro dado que chama a atenção é que o brasileiro procurou mais o médico entre 1998 e 2003. Entre os entrevistados pelo IBGE, 62,8% declararam ter consultado um médico nos doze meses anteriores à pesquisa. Em 1998, esse índice foi de 54,7%. A maior proporção está concentrada nas faixas etárias extremas, entre os menores de 5 anos (77,7%) e maiores de 64 anos (79,5%).

A explicação está nos acompanhamento pediátrico e procedimentos como vacinação para as crianças e no tratamento de doenças crônicas entre os idosos. As mulheres, principalmente na idade reprodutiva, foram as que mais procuraram o médico: 71,2% contra 54,1% dos homens. Mais uma vez as desigualdades regionais e de renda aparecem: 64,9% da população urbana foi ao médico, enquanto esse número ficou em 51,6% na população rural. Entre os que vivem em famílias que ganham mais de 20 salários mínimos, o percentual sobe para 78,3% em relação aos que têm renda familiar de um salário, cujo índice foi de 58,5%. Quase 22% da parcela mais rica da população não visitou o médico uma única vez no período de um ano. Nem mesmo para consultas preventivas.

Horror a remédio

Às vésperas de completar 80 anos, Iracema de Souza Thomé não vai ao médico há quatro anos, desde que submeteu-se a uma operação na vesícula. "Desde criança tenho horror a remédio. Assim como o agrotóxico parece fazer bem mas enfraquece a terra, o remédio enfraquece o organismo" diz Iracema.

Freqüentadora da Igreja Messiância, ela acredita nos benefícios do Johrei, termo que significa luz e tem por objetivo aliviar os sofrimentos. "A saúde melhora como conseqüência do Johrei", diz Iracema. Para ela, nem visitas preventivas ao médico são necessárias. "Tenho ótima saúde, não sinto nem dor de cabeça. E a gente vem ao mundo com uma data pré-determinada. Ninguém vai me salvar. Se eu for ao médico, ele vai descobrir tanta coisa que eu vou parar de viver. Prefiro não ir", argumenta. Na semana passada, Iracema fez alguns exames para viajar para o Japão numa comitiva da igreja, no dia 2 de junho. "Estava tudo bem, pressão 12 por 8", comemora.

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